Meu tio Maurice Douek (Z"L),
Diretor de Culto da Sinagoga Ohel Yaacov
Página 13
Homenagem ao meu tio Emile pela sua sabedoria e seus conselhos, em conversa o ao telefone.
Estrangeiros e estranhos ao lugar que expressava “Abolição” (abolição da escravatura) aos nossos ouvidos, somente tinha relação com placa de rua, não longe da avenida Brigadeiro Luiz Antônio, que na época da minha infância pouco significava por desconhecer a história do Brasil, país acolhedor, (não posso omitir a expressão “acolhedor” pois é necessário o reconhecimento dos fatos)… O Brasil sabido habitado por uma povo lusófono com sotaque arrastado e cantado e que não tem única relação ou referência a terra europeia portuguesa antigamente colonizadora.
Não foi por acaso que na Sinagoga situada à "Rua da Abolição (da escravatura)", buscarmos raízes sefarditas com os judeus portugueses em São Paulo; e foi neste contexto que que “a chamada Abolição” virou sinônimo da nossa Sinagoga que era distante de poucos quarteirões onde se concentrava boa parte das famílias judaicas de origem egípcia que habitavam a região nos anos 1960.
Cito que ao lado de identidades culturais, sociais e étnicas, que via nas ruas próximas e quase adjacentes, um local de integração judaica e egípcia. Nos encontramos e nos reconhecemos em locais de precisos de habitações tal como a Avenida Nove de Julho, a Rua Rocha, a Rua Avanhandava, a Rua Manoel Dutra e a Rua Santo Antônio (e não apenas). Sabíamos que neste ambiente poderíamos nos reconhecer, semelhantes, familiares e acompanhados pelos nossos pais e avós para encontrar mais e mais judeus e judias belas e sorridentes que nas suas expressões revelavam uma identidade culturalmente semelhante e desbravadora; prontos para uma nova vida a se perpetuar no Brasil paulistano. Esta foi a minha experiência de adolescente junto com meus pais, primos, irmãos e todos sabíamos que tínhamos dois pontos de encontro: a Sinagoga da Abolição e o clube Hebraica não longe de casa, de ônibus da CMTC, chamado “Vila Buarque” que nos dirigia até a Rua Iguatemi descendo a Rua Augusta. Foi este o caminho de domingueiras quando as famílias se estabelceram, se casraam de tudo se multiplicou em sobrenomes de muitas origens, tais como Cherez, Iskaki, Levy, Saidon, Catach e mais sobrenomes que não me vem à memória (envelhecida? certamemte não).
A Sinagoga da Abolição era de uma construção dos anos 1920 e o canto durante os rituais não era o canto das Sinagogas do Cairo e de Alexandria, até que um dia o Grande Hazan (Z”L) David Succar trouxe para nossos corações o tempero mediterrâneo com seu canto estendido e florido essencialmente de raízes árabo-judaicas; e foram estabelecidas em consentimento, as mudanças em cantos alegres que também traziam aos seus lábios o Hazan Elias Mizrahi (Z”L) que imediatamente se alegrou com seu jeito particular e carinhoso. O rito renovado se tornou mais oriental, do Magreb, Tunísia, Egito e Síria e também com um tempero alegre e português de Isaac Levy (Z”L), diretor de culto por muitos anos. A sinagoga desde 1962 até hoje mantém o necessário “Minyan” e já podemos contar mais de seis décadas das orações diárias onde meu pai David e meus tios Josué, Maurice e Rafla deram enorme contribuição que fez a alegria e o crescimento da família Douek até hoje, seja em São Paulo ou também além mar, na França, Suíça e Estados Unidos onde hoje moram os meus parentes e familiares mais próximos.
O que herdamos da época da segunda renovação da Sinagoga até hoje, é também lembrança visual renovada duas vezes. A lembrança de uma grande Menorah, dourada, sobre um imponente e alto pé-direito de belíssimo mármore, cercado por belíssimos vitrais não menos imponentes. A antiga Sinagoga trouxe e manteve o sorriso nos lábios ao carregar os sefirot em canto alegre quando nos reconhecemos juntos, fortes e renovados para sempre, a cada Shabat e em mesma alegria e sequência durante as grandes festas e com renovada fé e alegria.
Jamais envelheceremos!
Sami Douek em 24 de Novembro de 2024